Escrevo porque sinto que, apesar de algum esforço para fluir numa direção contrária, tenho me tornado uma mulher meio… Amarga.
Uma mulher com um enorme peso no peito e uns três nós na garganta. Sinto que se fui tão leve e se no meu rosto só coube um semblante de tranqüilidade com respingos de alegria, foi breve. Porque esta mesma semana, passando em frente ao espelho do banheiro, vi, num relance, nuances de amargura nos cantos da boca e uma maquiagem delinear meus olhos negros com a cor da angústia.
Displicente, joguei alguma água pra fazer escorrer aquilo estranho a mim. Debalde. Lavei então com sabão, esfreguei com força. Até ficar a pele toda arranhada. Cheguei ao desespero de arrancar pedacinhos de mim. Debalde. Por baixo havia ainda aquela coisa tosca e triste. Aos montes.
Escrevo por receio de, após algumas décadas de vãos esforços, desistir. E me deixar cobrir-me inteira de desgosto. Escrevo mesmo por puro medo. E se eu me tornar uma daquelas escritoras amargas que vomitam as tristezas d’uma vida no papel e criam grandes livros para compensar pequenas vidas medíocres?
Pois se hoje há em mim vestígios de alegria, temo que amanhã eu queira somente fugir do mundo e me isolar no meio do nada, pra fumar um cigarro e beber vinho e ouvir Coltrane e escrever até o punho pedir descanso. E de ficar ali pra sempre.
Ai, que não quero tocar outros corações contando as desventuras da minha desvida. Quero poder lembrar da minha vida, minha vida vivida, do meu coração tocando minha vida. E sim, quero ter todo o material para ser assim, ridiculamente piegas.
Escrevo. Com dor no peito, morrendo de medo, mas escrevo. Preciso deixar plantada essa tentativa de trazer de volta à vida meu futuro eu. De dizer a mim, algo que não lembrarei mais, mas que só eu sei e só eu mesma poderia me contar. De ressuscitar boas e intensas lembranças. De soprar no ouvido aquele dia na praia, esperando o dia amanhecer direito, segurar na mão d’um amigo. De assobiar uma melodia que traga de volta os tempos da faculdade. De, fazer-me cheirar essa carta e recordar instantaneamente aquele beijo, aquele mesmo, com o qual “todos seguintes foram depois comparados. E deixaram a desejar…”
Escrevo na esperança de ser lida pelo meu eu de amanhã, esse eu que tanto temo, essa grande escritora infeliz. Na esperança de me trazer alguma esperança.
Ai, escrevo!, descrente da minha própria empreitada. Pois que tanto tento cuspir esse gosto de bílis. Cobrí-lo com sabores mais agradáveis. Disfarçar com bombons de canela. Tanto que me apego a maravilhosas lembranças – eu as tenho!-, mas o gosto ruim nunca se esvai. Apesar do banho de cachoeira e da corrida gratuita na chuva…
Escrevo porque fraquejo. Porque, no fim das contas, me chama a grandeza dessa sina agridoce: ser, nas palavras, imortal e imensa. Escrevo para te dizer-me, se fores mesmo tão triste, que foi escolha tua. Sinto muito…
Catarina Macena é estudante de Publicidade e Propaganda e excelente escritora nas horas vagas. Leia mais textos dela no Poemas Tardios.
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