Numa sala pequena e escura há uma cadeira, apenas uma luz em cima da cadeira. Cristina vem caminhando, senta na cadeira delicadamente e cruza as pernas. Ela aguarda alguns momentos, olha para os lados como se estivesse desconfortável, suspira.
- Toda noite é assim… ele chega, sai jogando as coisas pelo meio da casa: a gravata vai parar na mesa de jantar, os sapatos são deixados um em cada canto da sala, o paletó fica em cima do sofá e a camisa e, ahhhh a camisa, essa não tem morada definida, todo dia pára num lugar diferente…
Numa sala igual, Marcelo caminha rápido e senta bruscamente na cadeira, se levanta, dá a volta na cadeira e a gira para o corpo, sentando nela, folga a gravata sem deixar de olhar para a frente.
Cristina continua seu relato.
- … o que ele acha que eu sou ? algum tipo de empregada que ele contratou para o resto da vida só porque nós assinamos algum papel nojento aquele maldito dia no cartório? Às vezes até penso, viu? Penso em largar tudo e sair por aí, para qualquer lugar, sem rumo, andando, andando e andando. Acho que se tivesse pelo menos um dia assim eu voltaria a ficar mais calma, talvez um pouco de ar… Montanha! Uma temporada na montanha até que seria interessante…
Marcelo olha aflito para os lados e bate o pé freneticamente. Ele olha para o relógio.
- … depois ele sobe as escadas e passa por mim na tábua de passar, passando as roupas DELE e você acha que ele me lança um olá, que me cumprimenta, que me dá um beijinho simples? N-A-D-A! Simplesmente passa e se joga na cama junto com seu companheiro inseparável: o controle remoto…
Marcelo olha para o relógio, fixa os olhos em linha reta.
- Posso falar ?, indaga Marcelo.
Ele abre a boca para falar.
- … aí ele sai gritando: Cadê minha comida ? … Cadê a almofada ? Benhê, cadê a camisa verde que tem a gola em forma de V? – Não sei porque e nem como eu deixei as coisas chegarem à este ponto, os anos passam e a gente nem percebe que vai caindo na rotina e, principalmente, ficando velho. Quem ele deve achar que eu sou?
Marcelo finalmente começa a falar.
- Ela é minha mulher, porra!
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