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Foi uma surpresa agradável assistir o filme Janela da Alma. Primeiro porque sempre ouvi muito falar desse filme e de suas histórias e principalmente sobre a participação de José Saramago nele, mas nunca tive a oportunidade de assistir. Segundo porque é um filme que retrata o modo de ver, um filme que explica o olhar, um filme sobre as pessoas e de como pessoas normais podem se tornar tão belas. Só nisso há duas coisas interessantes: a história dos problemas de visão, que sempre me fascinaram e despertaram interesse em saber como era não poder ver a luz nascendo todo dia ao acordar e a descoberta incrível de que ainda há pessoas interessantes a se conhecer num mundo que, aos meus pobres olhos, só faz ficar cada vez mais escuro e decepcionante.
Mas não foi com Saramago ou com qualquer outro dos entrevistados discorrendo sobre a visão, ou a falta dela, que me encantou. Quem me encantou foi um senhor com aparência de frágil que perdeu a visão após dois acidentes de guerra e em vez de ficar em casa lamentando-se, como talvez eu o fizesse, descobriu um novo sentido, uma nova habilidade: a de fotografar o invisível.

Eu costumava ter um sonho em que um dia acordava e recebia a noticia que ficaria cego pra sempre. E se a maioria das pessoas poderia achar uma péssima noticia, eu nunca ficava de todo triste. Encantava-me a possibilidade de “ver” com outros olhos. Como seria pedir para as pessoas descreverem um pôr-do-sol na praia? Será que elas conseguiram expressar de forma clara a beleza daquele momento? Aliás, como poderia eu definir qual era a melhor interpretação se aquele momento pode causar uma infinidade de sensações diferentes em cada pessoa?
Em um momento do filme você relata o caso das fotos de sua sobrinha correndo pelo campo. Fotos lindas, bem enquadradas. Você devia estar longe dela, mas ela carregava um sino e você, em vez de focar nela, focou o sino dentro da sua cabeça e apertou o botão. Clic. O som invadiu sua mente e transformou um tilintar numa cena cheia de vida que pôde ficar eternizada numa fotografia. Tem coisa mais bela que isso? Me faz imaginar como seria reconhecer os lugares pelo cheiro. As pessoas pelo tipo de passo. Os objetos pelo tato. Como é que você reconhece tudo isso? Deve ser tão mais intenso, tão mais verdadeiro e real tocar numa árvore sem medo dela e aproveitar a textura escorrendo elos seus dedos, conhecendo-a de verdade. Não posso dizer que conheço as coisas de verdade. Milhões de objetos, pessoas e ligares passam voando pelo meu olhar a cada vez que entro num ônibus e viram apenas vultos. E eu continuo aqui me achando muito importante porque consigo ver tudo isso quando na verdade é você e tantos outros que aprenderam a enxergar de verdade que conseguem “sentir” cada coisa. Conhecer cada coisa. Invejo tudo isso.
Invejo a capacidade de tocar o rosto de quem eu fotografo, de passar os dedos e descobrir qual o melhor ângulo daquela pessoa em vez de apenas olhar rapidamente e “supor” o que vai ser melhor. Você disse que ficou surpreso quando revelou as primeiras fotos e as pessoas disseram que havia imagens ali. Como foi sentir isso? Como foi alguém chegar e dizer que você conseguiu enxergá-la quando na verdade você não enxerga nada? Queria ter essa sensação.
Depois de imaginar ser cego durante um tempo, eu fico pensando se eu realmente iria querer isso pra sempre. Acordar todo dia e não ter a visão pra me guiar deve ser realmente horrível e iria dificultar a minha existência miserável, porém fácil e cômoda. Mas quem sabe se eu não iria conseguir, sem um dos sentidos, fazer com que os outros comecem a funcionar de verdade? Você tira fotos do som, do invisível, do intangível, do inacreditável. Bavcar, você não enxerga o seu objeto de mira, mas extrai dele um momento único que fica eternizado por causa da sua capacidade gigantesca de imaginar! De sonhar! De criar! Criar algo sobre um papel em branco é fácil, o papel e a caneta estão ali, só preciso começar a escrever. Mas você parte da escuridão e usa a luz para recriar um mundo que só você consegue ver. Se isso não é magia, não sei o que mais é.
São tantas as curiosidades que eu tenho sobre você e sua arte que dá vontade de pegar um avião agora e partir só pra te vigiar e aprender a viver tão intensamente quando você teria todos os momentos pra não gostar mais de nada. O senhor transgrediu a própria cegueira. Lutou contra ela até ela ter que conviver com o fato de você faria o que as pessoas “normais” cheias de seus olhares virtuais tipicamente fazem: fotografam. Conseguiu colocar no papel o que é impresso a sua mente. Me fez pensar por horas, depois de assistir a Janela da Alma, sobre o que é enxergar de verdade.
Se eu pudesse fazer só uma pergunta, só uma pra você, seria: Se você tivesse a chance de enxergar durante vinte e quatro horas, mas só pudesse tirar uma única foto, sobre o que ela seria?
Eu gostaria de vê-la.
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1 Comentário
Beth Cruz
10 July, 2008 as 6:16 am
1Se tem uma coisa que me apavora é a possibilidade de perder a visão.
Tenho certeza que viveria sem qualquer outra parte do meu corpo, mas sem visão tenho minhas dúvidas.
Tato,olfato e visão são imprescíndivel no meu modo de ver.
É comovente ver uma pessoa nessas condições renascer com tanta dignidade e força.
Valeu,
abraço
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