Admito: tinha um preconceito escancarado contra Chico Buarque. Pra falar a verdade não era bem contra o Chico, pois não conhecia sua obra o suficiente para ter algo contra. Mas os fãs de Chico são insuportáveis. Acham-se a mosca que pousou sobre a última carne seca. Exibem os ingressos de cada show do cantor carioca como um passe entre a mediocridade dos que não tem R$ 300,00 para assistir a um show dele e a soberba dos abastados e culturalmente elitizados que podem dizer que foram pra um show dele.

Sempre fui da opinião também que o artista tem o direito de cobrar quanto bem entender pelo seu show. Eu não sou o contador dele pra saber quanto ele gasta, ou quanto não gasta. A questão é que ninguém me obriga a virar fã de Chico e nem do U2, quanto mais a enfrentar dois dias de fila e ainda pagar por isso. Se alguém quer ver o danado do show, aproveite. E se o cara quer cobrar oito bilhões por mesa do seu show, aproveite. Melhor ainda se tem alguém pra pagar os oito bilhões. Então, desta culpa eu livro o Chico. Mas os fãs não.

Os fãs usam essa história de shows esporádicos, caros e exclusivos como se fosse um tênis de marca ou uma bolsa da Louis Vitton, usam para gabar-se. O que, pelo menos pra mim, denigre o show, que começa a ter um valor maior pelo preço do ingresso do que pela qualidade do mesmo. Lamentável.

Esses “fãs” perdem o encanto de ir pra um show despidos de armaduras, ou casacos de pele, e aproveitar a boa música que Chico Buarque faz.

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Comecei a ouvir Chico no cd Carioca. Uma delícia. A cada música, em que a voz suave dele caminha entre notas simples, você é levado a esquecer que está escutando um cd sentando numa poltrona. A música, pouco a pouco, vai começando a entrar em você e a fazer parte do cenário, você sente a música. É tão diferente experimentar essa sensação. Sou eclético, às vezes até demais, então você pode até me flagrar numa festa cantando um pagode (se bem que prefiro samba, claro), mas não sou de reprimir-me, muito menos em gostos musicais. Mas não há como negar a diferença no ritmo que o coração se agita ao ouvir uma boa música. Isso é um fato.

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quando estive no Rio, há alguns meses atrás, talvez no clima da cidade, peguei outros vários CDs de Chico. Foi mais um incrível passeio deslizar pela discografia dele. Consegui me ver, ver meus amigos, meus amores e minha vida em várias de suas músicas.

Quando talvez precisar de mim
‘Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

Tem gente que gosta de novela, e tenho uma teoria de que isso acontece porque nos vemos lá na telinha na maior parte do tempo. Aquilo é a nossa vida, por mais que nos neguemos a acreditar que seja tão ridícula. E na música não poderia ser diferente. Gosto de me ver e enxergar outro lado nas letras de uma canção. O meu outro lado. O meu lado de poeta sincero, caso eu tivesse a capacidade de escrever tão bem.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três.

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês.

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz.

Gosto de deitar na minha cama e colocar Chico pra cantar bem baixinho ao pé do ouvido. Só ali. Só eu e ele. Nessa hora não há burguesia que invada um sentimento de felicidade e não há fanatismo que saia impune. Só o prazer.

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Gosto de escutar “O caderno” e me imaginar cantando pra minha filha. Gosto de escutar “O meu guri” e imaginar-me sentindo orgulho do meu filho. Gosto de escutar “Valsinha” e sonhar com um salão de festas bem iluminado com passos lépidos para todos os lados. Gosto de escutar “Partido alto” e rir das verdades.

Foi assim que eu descobri Chico Buarque: vendo-me viver as histórias das canções sem precisar mostrar isso pra ninguém. Só pra mim.

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