Este não é apenas o melhor filme que o Brasil já produziu. É o verdadeiro filme que identifica uma nação e joga na cara dos seus cidadãos o que eles se tornaram. Não tem as músicas bacanas e as falas engraçadas de “Cidade de Deus”, nem as confusões de “Carandiru”, nem mostra a pobreza como uma coisa mágica como em “Central do Brasil”.
Tropa de Elite é o Brasil crú e com o sangue escorrendo de tão mal passado. O diretor José Padilha junto com os roteiristas Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel (ex-oficial do Bope) não tiveram medo de exaltar os heróis da Tropa de Choque do Rio de Janeiro, nem de mostrar o lado desumano e cruel deles, e muito menos de revelar a cara suja das polícias civil e militar. E não fica devendo nada pras produções americanas, tanto em roteiro e direção como em produção. Inclusive, trouxe de Hollywood o especialista em efeitos especiais Phil Neilson, que já fez os efeitos de filmes como Gladiador, Malcom X, Homem de Ferro, As Crônicas de Nárnia e muitos outros.
A história corre sob a ótica do personagem de Wagner Moura, o capitão Nascimento, que com a aproximação do nascimento de seu primeiro filho começa a temer pela vida e procurar um substituto para liderar a sua tropa. É aí que entram Matias e Neto, personagens de André Ramiro e Caio Junqueira, dois policiais honestos, porém inexperientes sobre como é o esquema dentro das corporações, que entram no treinamento do BOPE para tentar esta vaga. Daí pra frente o que se vê é a guerra ao tráfico de drogas, violência e corrupção mais bem retratada que já houve.
A parte mágica do filme é você ter a visão “burguesa” primeiro: Os traficantes ajudam a comunidade, de que os playboys do Rio são na verdade maltratados e humilhados pelos policiais inescrupulosos, de que o consumo de drogas individualmente não afeta a violência e de que os moradores da favela são na verdade os que sofrem com todo o tráfico e violência sem se envolver com aquilo. Mas, depois, as mesmas pessoas que antes defendiam essa visão são forçadas a encarar sob outra ótica.
Já morei no Rio de Janeiro e sei o que é tomar um baculejo da Polícia e ser humilhado na frente de qualquer transeunte. Sei o que é ter que pagar pra ter proteção, pra poder se livrar de uma multa. Sei o que é viver numa cidade em guerra civil que posa de cartão postal pra imprensa. Sei o que acontece dentro de uma favela, sei quem são os moradores de lá e o que eles fazem pra ajudar a tornar a situação cada vez pior. O filme mostra o lado cruel, sanguinário, desumano da vida carioca. Sem censura. Sem pudor.
Quanto a confusão por causa das cópias piratas, eu acho que na verdade ajudou o filme. A versão de cinema que sai na próxima semana tem apenas 4 minutos a mais de projeção do que a versão encontrada em qualquer camelô do Brasil. Mas ninguém me tira a idéia de que ver na sala escura é muito melhor do que ver em casa no sofá. Fora que apoiar e incentivar o cinema nacional com filmes como esse vão fazer as grandes companhias e os diretores se interessarem mais por histórias que nos tragam algo, e não apenas com filmes globais mela-cueca.
Nota: Tropa de Elite foi preterido pelo insosso “O Ano em que meus pais saíram de Férias” para a disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano que vem. Mais uma prova que a elite que rege o cinema brasileiro hoje em dia está mais preocupada com o dinheiro que a Globo coloca na mão deles do que em impulsionar o cinema nacional lá fora. Lamentável.
Tropa de Elite merece muito mais que 10 estrelas, merece 10 minutos de aplausos em pé dentro da sala de um cinema.
1 Comentário
Ares
7 Outubro, 2007 as 5:18 am
1Adorei a crítica..o filme é realmente muito bom e vc reproduzui bem as facetas dele..texto enxuto e bem lapidado =D
Ilonna
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